"Apertei a mão a Bin Laden, mas não sou terrorista"

Um dos dois ex-prisioneiros a residir em Portugal, Moammar Badawi Dokhan, conta como aderiu aos talibãs e confessa ter estado com Bin Laden. Garante que não é (nem foi) terrorista nem nunca matou ninguém. Esteve preso sem julgamento
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Em plena Avenida da Liberdade, em Lisboa, Moammar Badawi Dokhan dá um firme aperto de mão: "Foi assim que apertei a mão a Osama bin Laden. É verdade que estive com ele algum tempo, mas nunca o admiti em Guantánamo Bay, senão nunca mais tinha saído de lá."

Num tom calmo, conta uma vida com três momentos críticos: a adesão aos talibãs afegãos, o cativeiro em Guantánamo e o tempo em Portugal. Num português com cadência árabe, repete três palavras, o seu seguro de vida: "Não sou terrorista."

O sírio é um dos dois ex-detidos de Guantánamo acolhidos por Portugal, após um "pedido expresso" - como disse então o Ministério da Administração Interna (MAI) - da Administração Obama. Moammar Dokhan, o detido 317, chegou a Portugal com 36 anos, a 28 de agosto de 2009, onde foi "restituído à liberdade".

Na prisão, Dokhan admitiu tudo. Ser talibã. Ser jihadista. "Fui torturado. Levei choques. E a minha raiva só aumentou", diz ao DN. Mas as acusações - sem julgamento, sem provas - parecem ter sido esbatidas no tempo. Quando chegou a Portugal, o comunicado do MAI garantia: os ex--detidos "não são objeto de qualquer acusação, são pessoas livres e estão a viver em residências cedidas pelo Estado, que está a desenvolver as diligências tendentes à sua integração na sociedade portuguesa".

A situação tinha tudo para correr bem. Mas não correu. Moam-mar é duro nas palavras: "Não sou terrorista, mas o governo português trata-me como tal."

Isso significa que a história é uma fantasia das autoridades norte-americanas? Não. Até Moammar confirma alguns factos nas informações que constam dos ficheiros do Pentágono sobre o detido 317, divulgadas pelo The New York Times, com o apoio da Wikileaks. Cruzando versões e as duas verdades, há pontos de contacto. Vamos onde a história começa. Na cidade natal de Moammar, Damasco, a capital da Síria.

"Terroristas são os americanos"

Tem sido uma vida dura, com muito tempo passado em prisões. Por culpa própria ou não, uma coisa é certa: Moammar Dokhan nunca teve um julgamento justo. O sírio nasceu a 27 de julho de 1972 e diz que sempre teve "jeito para aprender".

Quando aos 17 anos saiu da escola, foi trabalhar com o pai numa empresa de maquinaria pesada, iniciando-se no setor da construção. "Aprendi a conduzir bulldozers,caterpillars, e a ser mecânico." Durante dois anos foi este o seu ofício, "uma vida normal, tão normal como beber um café aqui em Portugal", como aliás tinha sido a infância. Trabalhador e inconformado, a personalidade e as ações de Dokhan foram muito marcadas pela religião: "Sempre fui um estudioso do Corão. E sempre acreditei que o meu futuro seria o que Alá quisesse."

No serviço militar obrigatório do exército sírio, de 1991 a 1993, a experiência profissional determinou-lhe o percurso. Foi colocado no 463.º Batalhão de Engenharia com a função de operador de maquinaria pesada.

"Sim, sei disparar uma Kalashnikov. Sei disparar uma metralhadora automática. Sei manusear uma granada. Aprendi isso como qualquer sírio da minha idade naquela altura [tinha 19 anos]", afirma.

Nos quatro anos após a tropa, Dokhan voltou ao trabalho na construção. "Nesse período fui preso algumas vezes pelo governo da Síria. Porque [Hafez] al-Assad [então presidente sírio e pai do atual] nunca gostou de islâmicos como eu." Assegura: "Fui preso por ser islâmico, não por fazer nada de mal."

Aos 25 anos, Moammar Dokhan foi para a Arábia Saudita, onde arranjou emprego como mecânico e vendedor de carros. "Fiquei impressionado com a riqueza, com prédios duas vezes maiores do que estes [aponta para edifícios da Avenida da Liberdade], mas também comecei a sentir-me revoltado com a diferença entre pobres e ricos. Como podem uns ter tanto e outros tão pouco?"

Nesse ponto, a versão de Moammar não bate certo com a dos norte-americanos. O Pentágono indica que o sírio foi para Meca. Ao DN, ele diz que foi para Riade. De acordo com as autoridades norte-americanas, em 1998 Dokhan teria começado a frequentar mesquitas, onde se converteu ao jihadismo e se tornou extremista.

"Nunca quis pegar numa arma"

Na primeira pessoa, a história é similar mas não igual. Moammar admite que "nas mesquitas começaram a mostrar-me fotos de americanos a matarem crianças e mulheres muçulmanas. Fiquei revoltado. Eu, que era uma pessoa com dinheiro, só pensei uma coisa: tenho de ajudar aquelas crianças". E garante: "Nunca quis pegar numa arma. O meu objetivo era só um: ajudar crianças muçulmanas, dar-lhes de comer, ensinar-lhes o Corão."

O sentimento antiamericano cresceu em terras sauditas. "Os americanos matam crianças inocentes. Os talibãs não matam crianças. Para mim era e é claro quem são os terroristas: são os americanos."

De acordo com as informações norte-americanas, terá sido Sahykh Yaasin Talab a encorajar Moammar a deslocar-se para o Afeganistão, tendo-lhe providenciado um bilhete de avião no valor de 2000 reais sauditas (cerca de 500 euros). O sírio nega: "Eu tinha dinheiro. Isso são tudo mentiras."

Moammar confirma, no entanto, que viajou para o Afeganistão: "Na Arábia Saudita eram muitos os islâmicos, como eu, que diziam que iam para o Afeganistão. Muitos falavam, falavam, mas depois nunca iam. De acordo com o Corão, não devemos mentir. E se eu disse que ia ajudar aquelas crianças no Afeganistão, cumpri. E fui." Antes, passou por duas cidades paquistanesas: Carachi (aqui terá tido acesso a um contacto talibã) e Quetta.

No verão de 2001, o sírio chegou a Kandahar, cidade afegã. Os norte-americanos registam que começou aí a ser treinado para combater na linha da frente. Moammar nega: "Aí nunca disparei uma arma." Porém, admite: "Sim, juntei-me aos talibãs, mas não para combater. Repito: para dar de comer e ensinar o Corão a crianças afegãs."

De Kandahar, já com os talibãs, seguiu para Cabul, a capital, onde chegou a abrir uma loja. Nessa altura, acreditam os serviços secretos norte-americanos, morou na casa de um líder talibã.

Os atentados às Torres Gémeas, em Nova Iorque, precipitaram a guerra no Afeganistão, mas sobre isso Moammar não quer falar. As tropas da coligação lideradas pelos Estados Unidos entraram em outubro no país, então controlado por talibãs.

O sírio chegou a estar 17 dias numa missão na linha da frente em Bagram, mas pediu para regressar a Cabul, onde viveu com outros sírios numa casa referida pelos serviços secretos americanos como Syrian Guest House.

Informado sobre o avanço das tropas da coligação e da Aliança do Norte, Moammar retirou-se para a cidade de Jalalabad, onde esteve dois meses. A cidade é próxima da fronteira com o Paquistão, tal como as montanhas de Tora Bora, onde estava Osama bin Laden. Este percurso foi confirmado por Moammar ao DN.

Com Bin Laden em Tora Bora

Entre novembro e dezembro de 2001, Moammar acompanhou os talibãs na zona fronteiriça entre o Afeganistão e o Paquistão, na província de Nangarhar. Conviveu com Osama bin Laden nas montanhas de Tora Bora, mas não atribui um significado especial a esse contacto: "Qualquer pessoa que se juntasse aos talibãs podia chegar a Bin Laden. Isso não significa que seja terrorista."

Qual foi o tema de conversa? "Não conto o que falei com ele. Mas já disse que o cumprimentei." E acrescenta, exaltado: "Os terroristas são os americanos."

É um facto que a passagem por Tora Bora foi essencial para que os norte-americanos enviassem Moammar para Guantánamo, como consta dos sucessivos relatórios da prisão.

E repete com insistência: "Não sou terrorista. Não sou terrorista. Não sou terrorista." Os americanos são claros nos relatórios, citando outros prisioneiros de Guantánamo: "Não há inocentes nas montanhas de Tora Bora. Se estás lá é para combater."

Moammar mostrou que aquele não era o seu lugar quando, em meados de dezembro de 2001, decidiu entregar-se numa mesquita paquistanesa, através de um contacto do governo de Islamabad que havia prometido um armistício. O acordo não foi cumprido, não passava de uma emboscada.

Moammar e uma dezena de colegas que o acompanhavam foram imediatamente detidos pelas tropas paquistanesas. Os prisioneiros conseguiram fugir e alguns guardas paquistaneses morreram nessa operação. Embora sem referir qualquer prova, no relatório de Guantánamo é colocada a possibilidade de Moammar ter sido responsável por alguma morte. O sírio garante ao DN que nunca matou ninguém.

Moammar foi recapturado e ficou duas semanas nas mãos das autoridades paquistanesas até que, a 5 de fevereiro de 2002, foi entregue aos norte-americanos em Kohat. Acredita ter sido usado como "moeda de troca". É esta a opinião que defende: "O Paquistão tinha uma dívida financeira grande com os EUA. E o presidente dos americanos, [George W.] Bush, negociou com Perez Musharraf, que era presidente do Paquistão, para nós passarmos para as mãos dos americanos. Em troca, os EUA perdoaram a dívida."

Moammar diz que se recorda de alguém lhe ter dito em árabe, quando estava em Kohat: "Foste condenado a 200 anos de prisão." Uma sentença pesada. "Pensei: já não vou ter liberdade até à minha morte, seja ela quando for." Após 15 dias de detenção, foi transferido para Guantánamo numa das centenas de viagens secretas que ficaram conhecidas como os "voos da CIA".

O sírio acredita ter feito escala num aeroporto militar em Portugal na viagem para Guantánamo. "Apesar de ter feito o voo num avião militar, com os olhos vendados, lembro-me de ouvir a palavra Portugal. Na altura nem sequer sabia o que significava Portugal. Mais tarde pensei que talvez tenha vindo para cá porque sentem remorsos de terem deixado que eu passasse por aqui quando fui detido ilegalmente", conta o sírio ao DN.

O DN confirmou a lista de voos da CIA (ver página seguinte) que passaram pelas Lajes e Santa Maria, nos Açores, e o primeiro destes - de acordo com a comissão do Parlamento Europeu que os analisou - foi a 26 de março de 2002. Mas Moammar chegou a Guantánamo a 11 de fevereiro de 2002. Pode ter passado por espaço aéreo português (foram 94 voos com origem e destino em Guantánamo, segundo a Reprieve), mas não terá parado em solo nacional. No total, entre 2002 e 2006,17 voos fizeram escala em Portugal e sempre nos aeroportos açorianos das Lajes e Santa Maria. Porém, o PCP apresentou no Parlamento, em 2007, uma listagem de voos da CIA que, como lembra ao DN o deputado comunista Jorge Machado, "fizeram escala no Aeroporto de Sá Carneiro, no Aeroporto de Lisboa e nos Açores e transportavam passageiros para Guantánamo".

Nos documentos do Pentágono, Moammar surge incluído no Syrian Group, uma célula terrorista da Al--Qaeda. No mesmo sentido, há a suspeita de ter recebido "formação de bombista suicida" enquanto viveu numa casa de sírios no Afeganistão, a Syrian Guest House. Após a detenção, o seu nome terá sido encontrado numa pen drive com uma lista de "operacionais" e "suicidas" da Al-Qaeda, numa casa de membros desta organização terrorista em Islamabad, a capital do Paquistão.

A prova mais física é uma foto em que Moammar aparece num campo de treinos da Al-Qaeda (o conhecido al-Faruq), onde os norte--americanos acreditam que o sírio recebeu formação para disparar metralhadoras PK. Mas a foto foi tirada em abril de 2001 e Moammar - segundo escreveram e terão considerado plausível os serviços secretos norte-americanos - só entrou no país três meses depois.

Nada disto resultou em qualquer acusação. Moammar chegou a admitir ter estado nestes sítios. Ao DN, explica que confessou muitas coisas "sob tortura, depois de ser espancado ou levar choques". "Queriam pôr-me louco e eu muitas vezes acabava por admitir coisas que não fiz." Esta é a parte da história que Moammar mais quer contar. São sete anos e meio em Guantánamo.

Leia domingo na edição impressa ou no E-paper do DN a segunda parte desta reportagem

Serão relatados os momentos mais penosos dos sete anos e meio que Moammar passou em Guantánamo. O sírio denunciou torturas, que incluem choques elétricos ou atos de desrespeito religioso. Algumas das práticas do exército norte-americano são até novidade, face ao que já era conhecido. As torturas em Guantánamo e noutras prisões foram provadas pelo Senado americano em dezembro.

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